Câncer de tireoide inicial dá para tratar sem cirurgia? Um estudo latino-americano avalia a ablação por radiofrequência

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Câncer de tireoide inicial dá para tratar sem cirurgia? Um estudo latino-americano avalia a ablação por radiofrequência

Câncer de tireoide inicial dá para tratar sem cirurgia? Um estudo latino-americano avalia a ablação por radiofrequência

Câncer de tireoide inicial dá para tratar sem cirurgia? Um estudo latino-americano avalia a ablação por radiofrequência

Um estudo multicêntrico da Associação Latino-Americana de Tireoidologia Intervencionista (LAITA), publicado na revista Thyroid, avaliou a ablação por radiofrequência (RFA) guiada por ultrassom em 251 pacientes com câncer papilífero de tireoide de baixo risco (tumores de até 2 cm, sem metástases). Feita de forma minimamente invasiva e sem retirar a tireoide, a técnica levou ao desaparecimento completo do tumor em 89,7% dos casos — chegando a 97% após 18 meses e a 100% após 36 meses de acompanhamento —, sem metástases e com baixa taxa de complicações.

No Hospital Certa, a ablação por radiofrequência da tireoide guiada por ultrassom faz parte do arsenal minimamente invasivo — aplicada tanto a nódulos benignos quanto a casos selecionados de câncer de tireoide de baixo risco, sempre com avaliação individualizada e discussão das opções de tratamento.

O que o estudo investigou

O câncer papilífero é o tipo mais comum de câncer de tireoide — geralmente de crescimento lento e excelente prognóstico. Sua detecção aumentou muito nos últimos anos, o que trouxe uma preocupação real com o excesso de tratamento de tumores que talvez nunca causassem problema. As opções tradicionais são a cirurgia (retirada de parte ou de toda a tireoide) ou a vigilância ativa (acompanhar sem operar). A cirurgia, porém, tem riscos: necessidade de reposição hormonal por toda a vida, lesão do nervo da voz, alteração das paratireoides e cicatriz no pescoço.

Nesse cenário, a ablação por radiofrequência (RFA) surgiu como uma alternativa minimamente invasiva que destrói o tumor com calor, guiada por ultrassom, preservando a glândula e sua função. Consensos internacionais e as diretrizes da Associação Americana de Tireoide (ATA) de 2025 já reconhecem a técnica para tumores T1a de baixo risco selecionados. Como a maior parte das evidências vinha da Ásia, este estudo se propôs a avaliar os resultados da RFA na população latino-americana.

Como o estudo foi feito

Foi um estudo retrospectivo e multicêntrico, que reuniu 251 pacientes (252 tumores) tratados com RFA guiada por ultrassom em 12 centros de 6 países da América Latina — a maioria no Brasil —, entre janeiro de 2019 e junho de 2025. Todos tinham câncer papilífero de baixo risco confirmado por biópsia, com tumor de até 2 cm, sem sinais de invasão além da tireoide e sem metástases em linfonodos ou à distância.

O procedimento foi feito em sessão única, em regime ambulatorial e sob anestesia local, com um eletrodo introduzido pela pele até o nódulo sob visualização contínua por ultrassom. O acompanhamento incluiu exame clínico e ultrassonografia periódica (1, 3, 6, 12, 18 e 24 meses), avaliando três desfechos principais: o desaparecimento completo do tumor, a progressão da doença e as complicações. O tempo mediano de acompanhamento foi de 18 meses.


Figura 1. Esquema ilustrativo da ablação por radiofrequência de um nódulo de tireoide, guiada por ultrassom (corte transversal do pescoço). Representação própria do Hospital Certa, com finalidade didática; não corresponde a uma figura do artigo original.

Figura 1. Esquema ilustrativo da ablação por radiofrequência de um nódulo de tireoide

Principais achados

O desaparecimento completo do tumor foi de 89,7% no geral (226/252) e aumentou com o tempo: 97% nos casos com pelo menos 18 meses de acompanhamento e 100% naqueles com 36 meses ou mais.

Nos tumores menores (T1a, até 10 mm), o desaparecimento completo foi de 91,4%; nos maiores (T1b, acima de 10 mm), foi de 70% — mas com poucos casos (20), o que limita conclusões.

Não houve nenhuma metástase (em linfonodos ou à distância) durante o acompanhamento.

Entre os 26 tumores que persistiram, 25 diminuíram de tamanho (redução média de cerca de 81% do volume) — muitos ainda podem regredir com mais tempo de observação.

A taxa de complicações foi de apenas 2,4%, todas de rouquidão transitória, sem sequelas — sem mortalidade, sem hipotireoidismo permanente e sem alteração permanente da voz.

O acompanhamento por mais de 12 meses foi o fator mais associado ao desaparecimento completo, reforçando que a regressão do tumor é gradual.

Figura 2. Taxa de desaparecimento completo do tumor conforme o tempo de acompanhamento. Gráfico elaborado pelo Hospital Certa a partir dos dados de Dueñas et al., Thyroid, 2026.

Figura 2. Taxa de desaparecimento completo do tumor ao longo do acompanhamento

Onde foi feito e onde foi publicado

O estudo foi conduzido por Juan Pablo Dueñas e colaboradores da LAITA, em 12 centros de 6 países (Brasil, Equador, Argentina, Colômbia, Chile e Peru — com predomínio brasileiro), e publicado em 2026 na revista Thyroid, periódico oficial da Associação Americana de Tireoide (ATA).

Referência (Vancouver): Dueñas JP, Buitrago-Gómez N, Rahal A, Steck JH, Philippi de los Santos G, García C, et al. Early Outcomes of Thermal Ablation for Low-Risk Papillary Thyroid Cancer: A Multicenter Study from Latin American Interventional Thyroidology Association (LAITA). Thyroid. 2026. doi:10.1177/10507256261475837.

Por que isso importa para a saúde do paciente

Para pacientes com câncer de tireoide inicial de baixo risco — especialmente quem deseja evitar a cirurgia e seus riscos, ou não é bom candidato a operar —, este estudo reforça a ablação por radiofrequência como uma alternativa minimamente invasiva que preserva a tireoide e a sua função, com bom controle do tumor e baixa taxa de complicações. É uma abordagem já respaldada por consensos internacionais e pelas diretrizes da ATA de 2025 para tumores T1a selecionados.

Há, porém, pontos importantes a considerar. Trata-se de um estudo retrospectivo, com seguimento mediano de 18 meses — curto para um câncer de evolução lenta —, de modo que a durabilidade dos resultados a longo prazo ainda precisa ser confirmada. Nos tumores maiores (T1b), os resultados foram inferiores e baseados em poucos casos; por isso, a ablação nesse grupo deve ser vista como ainda experimental, idealmente dentro de estudos clínicos. A boa seleção do paciente e a experiência da equipe também influenciam o resultado, e a decisão deve ser sempre individualizada e discutida com uma equipe multidisciplinar.

No Hospital Certa, a ablação por radiofrequência da tireoide está disponível, realizada por equipe especializada em radiologia intervencionista e com valores acessíveis, ampliando as opções para pacientes com nódulos e casos selecionados de câncer de tireoide de baixo risco.

Perguntas frequentes

O que é a ablação por radiofrequência (RFA) da tireoide?

É um procedimento minimamente invasivo, guiado por ultrassom, em que um eletrodo fino é introduzido pela pele até o nódulo e usa calor controlado para destruí-lo, sem cortes e sem retirar a glândula.

A RFA serve para qualquer câncer de tireoide?

Não. No estudo, a técnica foi aplicada a tumores papilíferos de baixo risco, pequenos (sobretudo até 1 cm), sem metástases. Casos mais avançados ou de maior risco têm outras indicações. A avaliação é sempre individualizada.

A tireoide continua funcionando depois da RFA?

Sim. Como o procedimento trata apenas o nódulo e preserva o restante da glândula, na maioria dos casos não há necessidade de reposição hormonal — diferentemente do que costuma ocorrer após a retirada da tireoide.

Quais as vantagens em relação à cirurgia?

A RFA evita a cirurgia e seus riscos (cicatriz, lesão do nervo da voz, hipotireoidismo permanente), é feita em regime ambulatorial e preserva a função da tireoide. No estudo, a taxa de complicações foi baixa e todas foram transitórias.

O câncer pode voltar depois da ablação?

No estudo, não houve metástases e a maioria dos tumores desapareceu completamente, com taxas maiores quanto maior o tempo de acompanhamento. Ainda assim, o seguimento com ultrassom é essencial para monitorar a área tratada.

Quais são os riscos do procedimento?

A complicação mais comum foi rouquidão transitória (2,4% dos casos), que se resolveu sem sequelas. Não houve mortalidade nem alterações permanentes. Como em qualquer procedimento, os riscos devem ser discutidos com a equipe.

Sobre o autor

O Dr. Denis Szejnfeld é radiologista intervencionista, doutor pela Unifesp e professor da instituição, e ex-presidente da SOBRICE (biênio 2023–2024). Reúne três títulos de especialista — em Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia (SOBRICE) e em Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) —, com formação no Brigham and Women's Hospital e no Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard) e ampla produção científica em periódicos nacionais e internacionais. Consulte sua produção científica e índice de impacto (índice h) no Google Scholar (scholar.google.com/citations?user=11MgKEEAAAAJ) e o currículo completo na Plataforma Lattes (lattes.cnpq.br/5784659077054234).

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