É possível controlar a dor após a embolização de mioma sem raquianestesia?

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É possível controlar a dor após a embolização de mioma sem raquianestesia?

É possível controlar a dor após a embolização de mioma sem raquianestesia?

É possível controlar a dor após a embolização de mioma sem raquianestesia?

Um estudo prospectivo quase-randomizado publicado na revista CVIR Endovascular comparou duas estratégias analgésicas em 42 mulheres submetidas à embolização de miomas uterinos: o bloqueio do nervo hipogástrico superior, realizado pelo próprio radiologista intervencionista durante o procedimento, e a raquianestesia. Nas primeiras 18 horas, a dor e a necessidade de morfina de resgate foram semelhantes nos dois grupos — um resultado que apoia a viabilidade do bloqueio como estratégia analgésica, sem, contudo, provar equivalência entre os métodos.

O que o estudo investigou

A embolização de miomas uterinos é um tratamento minimamente invasivo consolidado e uma alternativa aceita à cirurgia em pacientes selecionadas. Seu principal desafio, porém, não está no procedimento em si, e sim no que vem depois: a dor das primeiras 24 horas. É ela que prolonga o tempo de observação, aumenta a exposição a opioides e encarece o cuidado.

As estratégias tradicionais de controle da dor se apoiam em opioides — eficazes, mas associados a náusea, constipação, coceira, sedação e aos riscos do uso excessivo. A raquianestesia oferece analgesia potente logo após a embolização, mas traz seus próprios inconvenientes: retenção urinária com necessidade de sondagem vesical, imobilização prolongada, prurido, constipação e cefaleia pós-punção.

Nesse contexto surgiu o bloqueio do nervo hipogástrico superior (BNHS), uma anestesia regional dirigida ao plexo nervoso que conduz a dor pélvica, localizado logo à frente da transição entre a última vértebra lombar e o sacro. Estudos anteriores sugeriam que o bloqueio reduz a dor imediata, o consumo de opioides e a necessidade de antieméticos, podendo até viabilizar a alta no mesmo dia. O que faltava eram comparações diretas e prospectivas com a raquianestesia — e foi exatamente isso que este estudo se propôs a fazer.

Como o estudo foi feito

Trata-se de um estudo prospectivo, quase-randomizado, de centro único, conduzido em um hospital universitário brasileiro entre março de 2022 e outubro de 2023, com aprovação do comitê de ética e consentimento informado de todas as participantes. Foram incluídas 42 mulheres com miomas intramurais sintomáticos confirmados por ressonância magnética, encaminhadas para embolização eletiva — 21 alocadas para o bloqueio e 21 para a raquianestesia, segundo uma sequência alternada predefinida.

No grupo do bloqueio, o procedimento foi realizado pelo próprio radiologista intervencionista por acesso percutâneo anterior, com a topografia do plexo hipogástrico superior identificada por tomografia de feixe cônico e navegação. Após a punção com agulha 22G, o contraste iodado confirmou o posicionamento pelo padrão de dispersão, seguindo-se a injeção de 10 mL de ropivacaína e 1 mL de dexametasona. No grupo da raquianestesia, a equipe de anestesia realizou punção subaracnóidea lombar com bupivacaína hiperbárica a 0,5% (dose mediana de 12,5 mg) associada a 150 µg de morfina; todas as pacientes desse grupo foram submetidas a sondagem vesical como parte do manejo neuroaxial. A embolização em si seguiu a técnica institucional padrão, com microesferas calibradas altamente compressíveis e acesso femoral comum.

A dor foi avaliada pela equipe de enfermagem em 1, 6 e 18 horas após o procedimento, por escala numérica visual de 0 a 10. Sempre que a paciente relatava dor moderada ou intensa, recebia uma dose de resgate de 3 mg de morfina intravenosa, conforme protocolo institucional padronizado. O desfecho principal foi o uso de qualquer morfina de resgate nas 18 horas de observação; os secundários, a dose total de morfina e a trajetória da dor ao longo do tempo.

Um ponto metodológico importante: como a alocação seguiu alternância e não sorteio computadorizado, sem ocultação da sequência nem cegamento das pacientes e das equipes, o estudo foi desenhado, analisado e reportado como quase-randomizado — e não como um ensaio clínico randomizado convencional.


Figura 1. Resumo gráfico do estudo: desenho, principais achados e interpretação clínica. Reproduzido de da Silva et al., CVIR Endovascular, 2026, sob licença Creative Commons CC BY 4.0.

Figura 1. Resumo gráfico do estudo sobre analgesia na embolização de mioma

Principais achados

✓ O uso de morfina de resgate foi idêntico nos dois grupos: 13 de 21 pacientes (61,9%) em cada braço precisaram de pelo menos uma dose (risco relativo 1,00; IC 95% 0,62–1,61).

✓ A dose total de morfina de resgate também foi semelhante — média de 3,71 mg no grupo do bloqueio e 3,43 mg no grupo da raquianestesia (razão de taxas 1,08; IC 95% 0,59–2,00).

✓ Os escores de dor não diferiram de forma significativa em nenhum momento: as diferenças médias entre os grupos foram de 1,29 ponto em 1 hora (p = 0,140), 0,48 ponto em 6 horas (p = 0,584) e 0,86 ponto em 18 horas (p = 0,325), sem interação significativa entre tratamento e tempo (p = 0,650).

✓ O bloqueio teve sucesso técnico em 21 de 21 pacientes (100%), com tempo mediano de 12 minutos (variação de 6 a 22 minutos) e nenhuma complicação relacionada ao bloqueio registrada.

✓ Não houve eventos adversos CIRSE de grau 3 ou superior em nenhum dos grupos; uma paciente do grupo da raquianestesia apresentou cefaleia pós-punção, manejada clinicamente.

✓ O diâmetro do maior mioma foi o preditor mais consistente de dor: a cada centímetro adicional, houve aumento do escore de dor (beta 0,26; p = 0,035), da chance de precisar de morfina (risco relativo 1,07 por cm; p = 0,044) e da dose total de morfina (razão de taxas 1,11 por cm; p = 0,007).

✓ Mais da metade das pacientes de ambos os grupos ainda precisou de morfina de resgate — sinal de que o bloqueio compõe uma estratégia analgésica multimodal, e não a substitui.

Onde foi feito e onde foi publicado

O estudo "Superior hypogastric nerve block versus spinal anesthesia for early pain control after uterine fibroid embolization: a prospective quasi-randomized comparative study" foi conduzido no Departamento de Diagnóstico por Imagem da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com primeira autoria de Priscila Henriques da Silva e colaboração de centros no Brasil e nos Estados Unidos. O Dr. Denis Szejnfeld assina o trabalho entre os autores, tendo participado da concepção do estudo, da seleção e avaliação clínica das pacientes, da realização dos procedimentos e da revisão final do manuscrito.

Foi publicado em 2026 na revista CVIR Endovascular, periódico de acesso aberto da CIRSE (Sociedade Europeia de Radiologia Cardiovascular e Intervencionista).

Por que isso importa para a saúde do paciente

É preciso ler este resultado com precisão. O estudo não demonstrou que o bloqueio é melhor que a raquianestesia — e também não prova que os dois métodos são equivalentes. Com 42 pacientes e sem cálculo prévio de poder estatístico, os intervalos de confiança são largos, e um benefício ou prejuízo modesto de qualquer uma das estratégias não pode ser descartado. O que o trabalho mostra é que, nesta casuística, o bloqueio alcançou um controle inicial da dor semelhante ao de uma técnica neuroaxial potente, já estabelecida na instituição.

A relevância prática está justamente aí. As duas estratégias diferem menos no controle da dor e mais no que acontece depois. A raquianestesia produz bloqueio motor: a paciente permanece deitada até recuperar a sensibilidade e a força nas pernas, precisa de sondagem vesical — todas as pacientes desse grupo foram sondadas no estudo — e a imobilização prolongada costuma exigir profilaxia antitrombótica. O bloqueio do nervo hipogástrico superior não bloqueia o movimento das pernas: permite deambulação precoce, dispensa a sonda vesical e evita a imobilização que motiva a anticoagulação profilática. Vale esclarecer um ponto que costuma gerar confusão: o bloqueio não elimina a participação da equipe de anestesia — a sedação durante o procedimento continua sendo feita normalmente por ela. O que se dispensa é a punção raquidiana e tudo o que a acompanha.

Essas vantagens dizem respeito à recuperação, e não à intensidade da dor — e decorrem da fisiologia das duas técnicas, não de desfechos medidos neste estudo.

Há limitações que precisam ser reconhecidas com honestidade: a alocação por alternância é vulnerável a viés de seleção, pacientes e equipes não foram cegadas (o que pesa especialmente quando o desfecho é dor, uma medida subjetiva), o acompanhamento parou nas 18 horas e não avaliou tempo até deambular, eficiência da alta ou satisfação, e a dexametasona usada junto à ropivacaína no bloqueio impede separar a contribuição de cada medicamento.

Para a paciente, a mensagem mais útil talvez seja outra: a dor após a embolização de mioma é esperada, tem causa conhecida — a isquemia do mioma tratado — e é maior quanto maior o mioma. Ela deve ser antecipada com um protocolo analgésico planejado, e não enfrentada de improviso. Independentemente da técnica escolhida, o essencial é haver um plano multimodal com analgesia de resgate disponível e monitorada durante toda a observação.

No Hospital Certa, a embolização de miomas uterinos é realizada com protocolo analgésico multimodal e valores acessíveis, sempre com avaliação individualizada de cada caso.

Perguntas frequentes

O que é o bloqueio do nervo hipogástrico superior?

É uma anestesia regional dirigida ao plexo nervoso que conduz a sensação de dor do útero, situado logo à frente da transição entre a última vértebra lombar e o sacro. Guiado por imagem, o anestésico é depositado nessa região por uma agulha fina, interrompendo temporariamente a transmissão da dor pélvica.

O bloqueio dói menos que a raquianestesia?

Não foi isso que o estudo mostrou. Nas primeiras 18 horas, os escores de dor e a necessidade de morfina de resgate foram semelhantes entre os dois grupos — sem diferença detectável a favor de nenhum dos métodos. A vantagem observada do bloqueio é de ordem prática, não de intensidade da dor.

Qual é, então, a vantagem do bloqueio?

As vantagens estão na recuperação, não na intensidade da dor. Como o bloqueio não paralisa as pernas, a paciente pode deambular precocemente, não precisa de sonda vesical e não fica sujeita à imobilização prolongada que costuma motivar a profilaxia antitrombótica. O procedimento é feito pelo próprio radiologista intervencionista durante a embolização e acrescenta poucos minutos. A sedação continua sendo conduzida pela equipe de anestesia, como de praxe.

Vou sentir dor mesmo tendo feito o bloqueio?

É possível. No estudo, mais da metade das pacientes de ambos os grupos precisou de pelo menos uma dose de morfina de resgate. Por isso o bloqueio deve ser entendido como parte de uma estratégia analgésica multimodal, com medicação de resgate prevista e disponível durante todo o período de observação.

O bloqueio tem riscos?

Neste estudo, o bloqueio foi tecnicamente bem-sucedido nas 21 pacientes e não houve nenhuma complicação relacionada a ele, nem eventos adversos graves em qualquer dos grupos. Como a amostra era pequena, complicações raras não podem ser descartadas com base apenas nesses dados.

Miomas maiores doem mais depois da embolização?

Sim. O diâmetro do maior mioma foi o fator mais consistentemente associado à dor: a cada centímetro adicional, aumentaram tanto os escores de dor quanto a necessidade e a dose de morfina de resgate. Isso é biologicamente esperado, já que um volume maior de tecido embolizado produz uma resposta inflamatória isquêmica mais intensa.

Sobre o autor

O Dr. Denis Szejnfeld é radiologista intervencionista, doutor pela Unifesp e professor da instituição, e ex-presidente da SOBRICE (biênio 2023–2024). Reúne três títulos de especialista — em Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia (SOBRICE) e em Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) —, com formação no Brigham and Women's Hospital e no Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard) e ampla produção científica em periódicos nacionais e internacionais. Consulte sua produção científica e índice de impacto (índice h) no Google Scholar e o currículo completo na Plataforma Lattes.

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